Romaria de S. João D’Arga
28 e 29 de Agosto de 2005
Local com acesso difícil, hoje já com estrada, a Romaria de S. João D’Arga, mantém, ainda em nossos dias, o tipicismo que sempre a caracterizou. Partia-se em “rusgas” ou “ranchos” acompanhados por concertinas, bombos e ferrinhos, a “tocata”.
Parava-se em sítios certos, para descansar um pouco e, vai não vai, logo se armava um bailarico, com as moçoilas nos seus trajes garridos de romaria e os rapazes, a acompanhar, na “Rosinha da Serra D’Arga” ou no “Vira de oito”. Mas a caminhada era longa. Os cestos dos merendeiros voltavam depois às cabeças e as “cabaças” de vinho verde aos bordões dos romeiros.
A Romaria era feita pelo caminho. Os que partiam com promessa rogada ao “milagrosos santinho”, advogado contra males de toda a espécie e em especial quistos, verrugas e doenças de pele, carregavam sacos de sal sobre os ombros ou soberbos galináceos ou roubavam telhas e cravos pelos caminhos, pois estes eram com os exvotos de cera, alguma das formas tradicionais de pagar as “graças” ao santo taumaturgo. Os que prometiam “ir em silêncio” e para que durante a caminhada ninguém os provocasse, levavam, como sinal, um cravo ou raminho de oliveira trilhado nos dentes.
Chegados à visita da capela, as raparigas refrescavam os pés no ribeiro. Do balaio saíam as mais belas meias rendadas e as chinelas do fato de romaria. Os rapazes põem a faixa vermelha e o colete de trespasse. Homens e mulheres, os fatos endomingados.
Oh! Meu rico S. João D’Arga / Onde é que vos foram pôr! / No meio de duas serras /Com sobreiros ao redor!/
A chegada dos “ranchos” era sublinhada com foguetório e as bandas de música saíam ao seu encontro a recebê-los para, acompanhados das Mordomas, darem as três voltas em torno do adro. Depois, o “grupo” entrava na capela para “cumprimentar” o Santo Patrono. Como a imagem de S. João está no altar-mor e fora do alcance dos “romeiros”, vêem-se pousados no altar dois crucifixos de madeira com que os devotos devem tocar na imagem e depois beijam-no na parte que tocou o Santo; pés, mãos ou vestido.
À uma hora é a missa da Festa. Em seguida é a escolha para o merendeiro e o guardador das roupas nos “cartéis” (edifício em L de dois pisos maciços e atarracados, de granito tosco; no primeiro há um alpendre virado para a capela que dá entrada para os “quartos”; no rés-do-chão instalam-se os vendedores de comes e bebes). Às cinco horas é a procissão. S. João Baptista, Santo Aginha, bandeiras e cruzes paroquiais, o pálio, as bandas de música, o colorido dos trajes à lavradeira, com “fatos de festa” e de “domingar”, verdes, azuis, vermelhos, as raparigas de Dem e de Afife, S. Lourenço e das Terras de Geraz, os fatos de “dó”, os azuis e roxos de Santa Marta, as mortalhas, as promessas, os andores, e aquele cheiro à serra, ao rosmaninho, catedral de granito erguida, no temor de Deus! No fim da procissão, o mesmo ritual quiçá mais doloroso: voltas à capela de joelhos, oferta dos sacos de sal, peças de cera, telhas e cravos.
E mais missas e mais sermões. Cá fora já era o arraial. As concertinas, as tascas improvisadas, as cantigas ao desafio, o jogo do pau. O Povo do Minho ali está todo inteirinho ontem como hoje, como amanhã. Um povo lavado, lavado de sol, da serra, com alegria de viver e de cantar.
Senhor S. João / Que estais no altar / Abri-nos as portas / Queremos entrar!
A Romaria de S. João d’Arga é este retrato que espelha o modo de sentir, de ser e de estar das nossas “gentes”. Noite fora, manhã dentro, o “arraial” acaba com o “lavar da cara” às primeiras luzes do dia 29, no ribeiro próximo que ali corre. Para assistir à missa d’Alva, para partir, já manhã alta, pelos mesmos trilhos:
Adeus que me vou embora / Daqui me vou retirar / Adeus cravos, adeus rosas / Aqui vos deixo ficar.
Não sem que os mais namoradeiros quisessem saber se o casamento era mesmo a valer. E uma das muitas lendas que a serra guarda era de as raparigas casadoiras atirarem uma pedra ao penedo casamenteiro e daí a tradição do S. João “casamenteiro”, também, merecer a seguinte quadra:
O meu Senhor S. João / Casai-me que bem podeis / Já tenho teias de aranha / naquilo que bem sabeis.
E o “rancho” reorganiza-se, ouvem-se de novo os sons das concertinas, as mulheres colocam os “balaios” à cabeça, os homens os varapaus ao “ombro”, as raparigas tiram as meias e as chinelas e, descalças, voltam ao caminho, pelo Guindeiro, até S. Lourenço, até à Ribeira Lima, até p’ró ano.
TRILHO A PÉ – CAMINHO DE SÃO JOÃO D´ARGA
Com Dois Trajectos: Vila Praia de Âncora / Montaria / São João d´Arga;
Montaria / São João d´Arga (ed. Joaquim Vasconcelos –
Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora)
Saída no próximo Domingo, dia 28 (Igreja Matriz de Vila Praia de Âncora), pelas
7,H30. Contacto / Marcação / Almoço até ao dia 27: Delegação de Turismo de Vila
Praia de Âncora – Telefone: 258 911384. Distância 22 Kms; Acesso difícil; Calçado desportivo; No final, almoço convívio com a iguaria mais representativa da Serra d´Arga: o cabritoe o seu famoso sarapatel. Regresso (para quem não fica para o arraial) a Vila Praia de Âncora em autocarro.
Segue-se através de caminhos rurais até Vile. Em Vile, cruza-se um caminho municipal e continua-se até ao lugar de Serrape. Depois por um estradão e contorna-se o outeiro de Santo Amaro pelo lado norte. Segue-se pela Capelinha do Espírito Santo e daí até à Igreja Matriz de Riba d´Âncora. Aqui toma-se o caminho que passa junto à Quinta da Armada. Prossegue-se até Vila Verde e antes da Capela de São Miguel, sobe-se a rampa até ao centro do lugar, junto da Casa do Fojo.
Aqui faz-se uma pequena paragem. Iniciado o percurso, apanha-se um estradão até Gondar. Passa-se pelo centro da freguesia e segue-se em direcção a Dém. Num desvio a uns duzentos metros à direita, entra-se num caminho rural até ao sítio “Avareira”. Depois, e já perto do lugar de Pedrulho, vira-se no sentido de São Lourenço da Montaria. Depois, por caminhos do monte sobese até à Chã dos Guindais.
Este é o ponto de encontro dos Romeiros vindos do Vale do Lima e que saíram do Largo do Souto, São Lourenço da Montaria. Ponto de paragem e onde os mais foliões gostam de dar um pé de dança ao som das concertinas. A partir daqui começa-se a descer a serra, até ao regueiro da Fisga que mais a jusante vai dar origem ao Ribeiro de São João. Próximo, já se encontram os quartéis e, depois, a ermida românica de São João d´Arga.
E no regresso não esqueça de passar por S. Lourenço da Montaria onde irão continuar os folguedos e a diversão, assistindo à Romaria de Santa Bárbara que ali tem lugar, nesse dia.